Como lidar com a pressão para ser feliz o tempo todo.
A pressão para ser feliz o tempo todo
Você não é feliz? Ah, para de mentir! Não acredito em você! Olhe ao seu redor: como a grama de todo mundo está verdinha, nenhuma conta para pagar, nenhuma preocupação, todos com saúde – agora, a terceira idade começa só aos 70 anos! Você “tá” é por fora. Abra aí seu celular, entre na rede social de sua preferência, dê uma olhada na quantidade de felicidade, de pessoas sem preocupação, vivendo uma vida dos sonhos! Só VOCÊ que não!
Se você não está feliz o tempo todo, tem alguma coisa errada com você! Deve estar faltando algo em sua vida. Que tal ir às compras? Cartão de crédito é pra isso mesmo, menina(o)! Vamos naquela loja “torra torra”. O cartão vai até azular de tanto que a gente vai usar. Se é pra torrar, vamos “botar fogo” então. Aí você não vai ter mais desculpas de estar triste, hein? O que acha? Vamos dar aquele “up”!
O mundo é felicidade pura! Mas, já que você não consegue ser feliz o tempo todo, você pode comprar! Compre felicidade, compre agora, não deixe para amanhã o que você pode comprar hoje. Felicidade é pra agora, instantânea, igual macarrão. Você tem obrigação de ser feliz. Quando o cartão chegar, vai dar uma certa tristeza, arrependimento – “coisa pouca”, não se abale! Há sempre a possibilidade de pagar o mínimo, um outro cartão, mais felicidade. Continue sendo feliz! Caso contrário, você é um perdedor, um incompetente, um zé ninguém. Fique longe de mim! Credo!
A ilusão da felicidade constante
Há há há! Eu conto, ou você conta, que vai dar um problemão do tamanho do mundo viver assim? Parece muito óbvio, não é? Mas a coisa é bem mais sutil. Eu exagerei, mas o pensamento é basicamente o mesmo: “Como assim você não é feliz?”
Na grande maioria das vezes, essa frase nem é dita. Não são as pessoas que aparecem em casa e começam a nos questionar sobre o quão feliz estamos. Tudo acontece automaticamente, com um processo muito primitivo: uma mistura de observação e sentimento, comparação + inveja! Essa palavra tem moldado o mundo desde que o mundo é mundo. Quando Caim matou Abel, foi por conta de uma comparação, seguida de um sentimento de inveja: “Ah é? O seu é melhor que o meu? Então, toma!” E assim aconteceu o “primeiro” assassinato registrado.
A gente compara muitas coisas – repito, muitas coisas! – e as inveja no outro. Sim, é duro. Durma com isso. E parece que não há um meio de satisfazer esse vazio que existe dentro da gente, um vazio existencial, nevrálgico, que, na psicologia, chamamos de falta. E não há mesmo. A falta sempre irá existir, algo que nunca será preenchido. Serve como motor. A falta é o que nos faz desejar. Guarde isso!
A falta e o desejo
Na psicologia, a falta é trabalhada para que fique “meio que sob controle”. Sendo ela o desejo, que nunca é totalmente satisfeito, precisamos colocar alguns “pingos nos is” para a “vaca não ir para o brejo”. Dentre as opções, temos como exemplo a sublimação através das artes, o uso da criatividade, os relacionamentos, a busca por um sentido e, principalmente, a aceitação dessa tal incompletude. É, meu querido(a), a gente tem um buraco sem fundo, sim, e ponto!
Dito isso, somos então basicamente seres desejosos, invejosos, sem salvação? O problema não é tão simples assim. A questão é que isso tem sido indiscriminadamente potencializado. Se ainda nos comunicássemos com sinal de fumaça, seria improvável que eu desejasse a fogueira do outro ou tivesse inveja da fumaça mais clarinha que saía do fogo que ele criou. “Nossa! Olhar aquela fogueira, ‘uga uga’, melhor que a minha fogueira. Quero a fogueira dele pra mim!” 😁 Fogueira, aqui, nesse contexto, tem um único papel: se comunicar. E ponto!
O consumismo e a ilusão da felicidade
Agora, iPhone 22x-SuperPowerProMax, que cheira chocolate belga e ainda emite raios ultravioleta. “Meu Deus! Como ele(a) deve ser feliz com esse aparelho!” Na próxima semana, o 22x já não será tão importante. Logo, menos felicidade. Então, sai o próximo nível de alegria: o 23x. É isso que te ensinam. É nesse nível que estamos sendo bombardeados. E não tenho dúvida de que, em termos de comunicação, dependendo do contexto, a fogueira seria muito mais útil. Se você cair em uma mata fechada e estiver sem sinal de celular ou sem bateria, faça uma fogueira. Fure o tão precioso celular, que o lítio de dentro da bateria, em contato com o oxigênio, vai pegar fogo. E você conseguirá se aquecer, espantar os animais e ainda chamar a atenção para uma possível localização.
Aí, quando te acharem, você vai entender o que é felicidade de verdade.
A verdade sobre a felicidade
Estou falando o óbvio, mas o óbvio precisa ser dito! NÃO EXISTE ESSA DE ESTAR FELIZ O TEMPO TODO! Se você se deparar com uma pessoa que está dando risada de tudo o que acontece, que parece não se abalar com nenhuma situação em que, normalmente, outras pessoas estariam pelo menos abatidas, tenha em mente que essa pessoa, muito provavelmente, está precisando de ajuda. E, no dito popular, está “rindo para não chorar”. Esse é um outro movimento de fuga/compensação que nós também fazemos.
A questão principal dessas redes sociais, que mostram somente pessoas felizes e bem-sucedidas, é o seguinte: tristeza não vende nada, gente triste não compra! Viver de aparências é também um modo de fugir da realidade. A pessoa imagina um ideal de como deveria ser, se baseando na vida dos outros. O sujeito tenta sustentar uma imagem que, na prática, não consegue manter. E, se o outro me deseja ou deseja o que eu tenho, “significa” que eu tenho algum valor.
Aceite os altos e baixos
A vida sempre terá seus altos e baixos. Isso é saudável, importante e deveria ser até desejável. Desafios é que fazem a gente crescer. Não acredite nessa tolice de que o seu vizinho é mais feliz do que você! Nesse mundo, há pessoas nessas redes sociais que estão “repletas de felicidade” e, no final do dia, estão com um desejo enorme de pular de cima do prédio mais alto que puderem encontrar, tamanha a realidade da tristeza que carregam dentro de si.
Vou bater sempre nessa tecla: seja você, se conheça cada dia mais. E, se for pra comparar algo, compare-se consigo mesmo, com sua versão de ontem, e o que você deseja que ela faça hoje. Ame-se e prossiga. E seja feliz de verdade, com a sua verdade!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 20/02/2024

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung