O vazio de conseguir o que queria

um reflexão sobre o amor com base simplesmente no desejo.

Existe um tipo de vazio que não vem da ausência, mas da conquista. É quando você consegue exatamente o que queria… e não sente nada, vem aquele pensamento: “E agora?”. Parece contraditório, mas é mais comum do que parece. Platão e Aristóteles falavam sobre isso. Platão dizia que amor é desejo pelo que não se tem. Aristóteles dizia que amor é gratidão e alegria pelo que já se tem. E talvez o nosso sofrimento venha de nunca sabermos viver bem nem um, nem outro. Ou pior: viver só um deles, viver somente o de Platão.

Eu quero tanto uma coisa, desejo-a tanto, mas depois que consigo, aquela potência que me movia em direção a conquista começa a decair, decair, até ao ponto de não darmos mais o mesmo valor inicial. A coisa torna-se banal: “Achei que era diferente, achei que seria diferente!”, mas é mais do mesmo. Estaria certo Salomão? O homem que teve tudo o que desejava e mesmo assim terminou a vida sem conseguir se satisfazer: “Tudo é vaidade!”

Vou contar suas duas histórias simples para exemplificar esses tipos de amor, de desejo, e refletir um pouco sobre eles.

O desejo que esvazia

Marina passou anos sonhando com um carro. Não era qualquer carro: era um SUV preto, com teto solar, banco de couro e painel digital. Trabalhava até tarde, fazia mil sacrifícios, economizava até no café. Cada imagem daquele carro em outdoor era uma faísca de motivação. Ela pensava: “quando eu conseguir, vou ser feliz de verdade”.

Cinco anos depois, conseguiu. Comprou. No primeiro dia, chorou de emoção. No segundo mês, como o carro era enorme se irritada com o trânsito. No terceiro, já nem lembrava da conquista, a rotina tomou conta novamente e a novidade já não era mais “nova”. Um ano depois, passou a desejar um modelo mais novo. Recomeça-se então o ciclo.

Marina sentiu o peso de Platão: o desejo que só existe enquanto há falta. Quando a falta acaba, o desejo morre. E no lugar dele, fica o vazio.

Cada objeto de desejo, me refiro a aquele do âmbito comercial, envolvidos pelo marketing é pensado minuciosamente pra despertar aquela emoção de falta no ser humano, no final é sempre uma compensação de uma falta. Porque um carro que faz na essência a mesma coisa que um fusca dos anos 60, é mais desejado? Porque não se vendo o carro em si, o que se vende é outra coisa, a experiência, o status, o conforto, o tamanho, ou seja, vende-se o que falta em nós.

Costumo dizer que se eu quero um carro grande é porque talvez eu me sinta pequeno, se quero algo veloz e potente pode ser que me sinta fraco em algum aspecto da minha vida. Há vários exemplos e o marketing é expert em despertar em nós essa necessidade, esse “amor” pelo que não se tem.

A presença que satisfaz

Já Raul era simples. Todo domingo de manhã, fazia café com a esposa. Não era nada grandioso. Só café, pão na chapa e uma conversa sem pressa. Às vezes falavam da semana, às vezes só ficavam ali, quietos. Raul amava aquele ritual. Acordava já feliz por saber que teria isso. E o melhor: aquilo já era dele.

Ele não desejava mais, parecia não precisar, estava onde queria estar. Se alegrava com o que tinha. Era o amor de Aristóteles: o amor que nasce da gratidão, da convivência, daquilo que já existe e é valorizado. Raul não sentia vazio. Sentia presença.

Mas também tinha um limite nisso. Com o tempo, parou de buscar qualquer novidade. Não queria viajar, mudar, crescer, nem aprender algo novo. Aquilo que era presença começou a virar rotina. E a rotina, quando não se movimenta, vira estagnação. Raul era feliz, mas aos poucos, foi se apagando. Faltava ambição, faltava desejo. Viver só do que se tem também pode matar por inércia.

O problema de viver só com um dos dois

Quem vive apenas do desejo está sempre correndo atrás. Quando alcança, perde o chão, perde o tesão. Vive de ilusão. Vive frustrado. Já quem vive só da gratidão pode acabar se acomodando demais, sem sonhar, sem movimento, sem aquela força que empurra para frente. O equilíbrio seria poder desejar sem ser escravo disso. E ao mesmo tempo, saber reconhecer e valorizar o que já se tem.

Amar com presença e com desejo

Imagina amar alguém não só porque falta, mas porque existe. Desejar não porque precisa, mas porque escolhe. Ser grato pelo que tem e ainda assim ter vontade de construir mais. Isso seria amor completo. Desejar com consciência. Agradecer com verdade. E não viver de frustração, nem de estagnação.

Dito isso, penso que esse forma de viver, desejando e sendo grato pelo que se tem seja o melhor dos caminhos. Cada vez mais não tenho dúvidas que o equilíbrio é parte essencial em quase tudo!

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 18/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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