O poder de um “não” bem dito!

um reflexão sobre a necessidade de impor limites

É um jantar, levanto a mão e o garçom vem para me atender.

— Por favor, uma água tônica!
— Gelo e limão? — pergunta o garçom.

— Sim, por favor. E, se possível, o limão espremido!
Depois de um tempo a bebida chega. Olho para o copo e só tem gelo. Pacífico como sempre, não digo nada. Minha esposa me questiona:
— Ué! Você não pediu com limão espremido?
Respondo com um gesto de "tudo bem, deixa isso pra lá".

Você pode achar essa história uma bobeira. Eu acharia há tempos atrás! Minha necessidade de não gerar conflitos era muito maior do que cuidar de si mesmo, do próprio desejo, de desejos simples como poder apreciar uma deliciosa água tônica com limão espremido, minha bebida predileta até os dias atuais. Deus me livre gerar algum tipo de “mal-estar” para alguém. Na época, até se o copo viesse sem gelo eu aceitaria de bom grado.

Fazer isso uma hora ou outra tudo bem?

É saudável até mesmo para nós aceitarmos algum nível de frustração, isso ajuda a dominar o ego e a entender que a vida é assim, cheia de erros! Mas quando não se trata disso, mas sim do medo de gerar conflito, a coisa fica muito mais preocupante e sempre é necessário um olhar mais profundo. Por quê? Porque nesse caso não tem a ver com domínio próprio, mas com o domínio do outro sobre você, o que é absolutamente diferente, e de certa forma, não desejável.

Quantas vezes você já disse “sim” quando queria desesperadamente dizer “não”?

Quando naquele dia, uma água tônica com limão espremido te “salvaria” de toda tensão acumulada naquele momento. E não se pôs presente, não colocou a “estaca limitadora” do seu território, só para evitar um conflito, uma rejeição, uma cara feia ou o peso da culpa? O “sim” automático é um dos maiores sabotadores, destruidores da saúde emocional. Dizer “não”, por outro lado, quando é verdadeiro e necessário, é um dos atos mais potentes de autocuidado e integridade emocional.

Na psicologia, aprendemos que colocar limites claros é um dos pilares para a construção de uma mente saudável. Isso porque o limite não é um muro que afasta o outro, mas uma cerca que protege o que é seu. É a forma de comunicar: “Eu me importo comigo, e para estar bem com você, preciso estar inteiro comigo primeiro.” Porque sem limites, eu não consigo dizer ao outro até onde ele pode vir, e sendo assim, sou literalmente invadido a qualquer hora, qualquer momento, sem aviso prévio. Terrível!

Por que é tão difícil dizer “não”?

Muita gente carrega dentro de si a crença de que dizer “não” é ser egoísta, ruim, ou que vai decepcionar o outro. Isso muitas vezes vem da infância, quando aprendemos que ser “bonzinho” era agradar sempre, mesmo às custas do que sentimos ou precisamos. Criamos então o hábito de nos abandonar para caber nas expectativas dos outros. Bom, pense comigo, nem sempre é bom, saudável, agradar o outro. Você não precisa ser um troglodita, uma chata de galochas, mas um NÃO bem colocado, com gentileza e um posicionamento correto, salvará o seu dia!

Caso contrário, esse “sim” que fere, com o tempo, vai se acumulando como mágoa, exaustão, ressentimento e, em muitos casos, se transforma em sintomas físicos e emocionais: Dores, ansiedade, explosões de raiva, depressão. Porque quando “cuidamos”, quando nos “doamos” para o outro, há sempre a expectativa do retorno, e na grande maioria das vezes ele não virá! Então, se for para dizer sim, faça sem a esperança de que haverá retribuição. Se for pra dizer não, tenha pelo menos a certeza de que o seu desejo, o seu limite será respeitado, e ele precisa ser!

Limites fazem bem a todos

Quando você se respeita, você ensina o outro a fazer o mesmo. Quando você impõe limites, você convida o outro a também se responsabilizar por si mesmo. Isso vale para relações amorosas, familiares, profissionais e de amizade, vale pra tudo na vida. Dizer não é importante para não ser literalmente consumido, sugado pelo outro. Relações sem limites viram relações sem espaço de verdade.

Um “não” pode, sim, causar desconforto, e é ótimo que isso aconteça, porque nem todo desconforto é maldade. Crescer dói. Amadurecer exige frustrações. Um “não” bem colocado pode ser o começo de uma relação mais autêntica, mais justa, mais equilibrada. Afinal, ninguém consegue sustentar a máscara do “sim eterno” por muito tempo sem adoecer.

“Sim” é afeto. Mas “não” também é.

A maior prova de que alguém se importa consigo mesmo é quando sabe dizer não com verdade e continuar amando o outro. Porque amor que exige nossa constante negação não é amor, é servidão emocional.

Aprender a dizer “não” é, no fundo, aprender a dizer “sim” para si mesmo. E viva a tônica com limão!

Um abraço, e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 05/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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