Terá um culpado a solidão?

uma reflexão sobre como somos responsáveis pela criação desse sentimento.

Solidão!

Há quem diga que é preferível “estar só do que mal acompanhado”. Eu também acredito nisso. Mas, com o tempo, percebi que estar só por muito tempo pode acabar nos fazendo escolher até mesmo uma má companhia. A solidão dói no mais profundo da alma. Tem muito a ver com um sentimento de inexistência, de menos-valia, de baixa autoestima — e, logo, a depressão começa a bater à porta. Sentir-se só é uma das piores experiências que existem.

Solitária!

Já ouviu falar nesse tipo de castigo usado em penitenciárias antigas? Era uma forma especial de punição na qual o preso era colocado numa cela individual, totalmente isolado de qualquer contato humano. Não via o sol. Era apenas alimentado para não morrer. A solitária era o mesmo que dizer: “Você vai sentir a morte, mas não vai morrer. Vamos te alimentar, mas você vai sentir como se não existisse mais.” É como morrer em vida. A solitária foi pensada para abalar psicologicamente — e nenhum preso queria ir para lá.

A desconexão de todos os dias

Quantas vezes — quase todo dia — passamos horas com alguém ao lado e, mesmo assim, essa pessoa se sente sozinha? Não porque estamos fisicamente ausentes, mas porque estamos desconectados. Muito preocupados com o mundo ao redor, com nossa própria vida. Vivendo no automático, lidando com mil tarefas, os olhos passam pela pessoa, mas não a enxergam. A gente olha, mas não vê de verdade. Ver de verdade é mais do que notar. É perceber. É estar presente.

“Eu vejo você” talvez seja uma das frases mais curativas que alguém pode ouvir. A coisa é tão rara hoje em dia que, se você proferi-la a alguém, talvez a pessoa nem entenda o significado. Pode até responder com ironia: “Tá bom! Que bom, você não precisa de óculos!”, ou “Espero mesmo que você me veja, estou aqui na sua frente, tá maluca?”. Não entenderão o real sentido da frase, porque boa parte de nós se esqueceu de como se faz.

E isso não precisa ser dito com palavras. É até mais impactante quando não é. Pode ser um gesto, um toque, um silêncio atento, um olhar que escuta, um abraço ou sorriso sem motivo. É o que dizemos quando enxergamos além da superfície: quando notamos o cansaço nos olhos dos nossos pais, a carência disfarçada no comportamento dos nossos filhos, a tristeza escondida no silêncio do nosso companheiro ou companheira. Dizer “eu vejo você” é como afirmar: “Você não está invisível pra mim. Eu percebo o que está se passando.”

Ver é se conectar

Na psicologia, falamos muito sobre validar o outro. Validar é reconhecer. É dar existência ao que a pessoa sente. E, quando validamos alguém, contribuímos com o que chamamos de vínculo seguro. Eu “seguro” em você, e você “seguro” em mim — seguro no sentido de segurança, não de dependurar-se. Forma-se um tipo de ligação que nutre, que dá base emocional, que gera confiança. A criança que sente que é vista cresce mais segura. O adulto que é visto dentro de uma relação se sente menos só. O idoso que é visto se sente lembrado e importante.

Hoje, infelizmente, é preciso treino para enxergar. Porque o mundo exige pressa — e o afeto exige pausa. A gente se protege tanto da dor que até a dor do outro nos afasta. Às vezes, escolhemos não enxergar. Quantas vezes eu ouvi: “Como você consegue ouvir tantos problemas e não surtar?” Para a maioria das pessoas, isso parece impossível nos dias atuais. Fingimos que não vimos a lágrima, desviamos do incômodo, respondemos com frases prontas para encerrar logo o assunto. Porque, afinal: “Todo mundo tem problemas, e eu preciso lidar com os meus! Cada um com o seu!” Esse é o pensamento.

E é aí que nos desconectamos. Às vezes o que nossos filhos querem dizer com birra é: “Você me vê?” Às vezes o que os nossos pais querem com uma ligação insistente é: “Você ainda me enxerga?” Às vezes o que o parceiro tenta dizer, mesmo sem saber como, é: “Me olha, estou aqui.” Às vezes, a lágrima do amigo é o último recurso para que alguém, por favor, o veja — e um abraço misericordioso e salvador aconteça.

Presença que transforma

Ninguém precisa de pessoas perfeitas ao lado — elas são insuportáveis! Ninguém lida bem com o perfeito, já que em nós abunda a imperfeição. O que precisamos é de alguém que nos veja com verdade. De verdade! Que perceba quando algo mudou. Que pergunte de novo quando a gente responde “tô bem” com voz apagada. Que saiba ouvir não só o que dizemos, mas o que calamos — ainda que nenhuma palavra seja dita.

“Eu vejo você” é o tipo de presença que pode mudar o curso de um dia, de uma dor, de uma vida. Às vezes, é o que salva. Não precisamos ser psicólogos para praticar isso. Só precisamos estar dispostos a escutar com os olhos, sentir com o coração e dizer, com gestos ou palavras: “Eu te enxergo, e estou aqui.”

Porque, quando nos sentimos vistos, deixamos de ser invisíveis até pra nós mesmos. E isso muda tudo.

Um abraço, e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 04/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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