Quem fez essa coroa de espinhos?

um reflexão sobre o comportamento humano

Há algum tempo, um homem simples caminhava entre as multidões, levando apenas palavras de paz, compaixão e esperança. Curava feridas, consolava corações e apontava caminhos de amor. Esse comportamento diferente, não comum para a época, despertou fúria, inveja e desconfiança. Quanto mais luz trazia, mais as sombras se levantavam contra ele. E no ápice de sua entrega, mesmo em favor daqueles que o odiaram, recebeu sobre sua cabeça uma coroa que não era de glória, mas que lhe traria dor como “recompensa” pelos seus atos, uma coroa de espinhos.

Fico imaginando, quem fez essa coroa de espinhos? Um sádico, talvez? É possível, mas o mundo está e sempre esteve repleto de pessoas egoístas, narcisistas, incapazes de aceitar seu estado atual de insignificância, de infelicidade e que, para diminuir seu sofrimento, não hesitam em arrastar quem quer que seja para o mesmo “balaio”, para que sintam dor — seja física, seja emocional. Às vezes conseguem, às vezes não, mas elas sempre tentam!

A luz que incomoda

Na vida, por mais íntegro que seja o caráter de uma pessoa, por mais bondosa que seja sua índole e por mais que se dedique ao próximo, sempre haverá aqueles que lhe entregarão uma coroa de espinhos. Não porque exista um motivo justo — aliás, isso nunca é justificável — mas porque a luz de quem age com sinceridade incomoda quem vive mergulhado na sombra das próprias frustrações. A bondade, quando genuína, muitas vezes se torna alvo de desconfiança e ataque, insuportável, justamente por expor aquilo que muitos não conseguem ser.

É muito mais fácil para alguns denegrir a imagem alheia do que construir a sua própria. O movimento é trazer todos para o mesmo nível: já que eu não consigo “subir”, derrubar o outro se faz imprescindível para minha sobrevivência emocional.

Assim, apontar defeitos inexistentes ou exagerar falhas pequenas se torna um caminho mais curto e menos doloroso do que olhar para dentro e assumir a responsabilidade da própria estagnação. A psicologia chama esse processo de mecanismo de defesa por projeção, no qual o indivíduo atribui ao outro aquilo que não consegue aceitar em si mesmo.

Inveja e comparação

A inveja ocupa um papel central nesse processo. Quem não suporta ver no outro aquilo que gostaria de ser acaba projetando seu ressentimento em forma de ataque. O sucesso, a paz ou até a simplicidade com que alguém conduz a vida podem ser interpretados como ameaças por aqueles que se sentem pequenos diante disso. Tendemos a nos avaliar comparando-nos com os outros, isso é absolutamente normal, mas quando essa comparação gera inferioridade, surgem sentimentos de inveja e hostilidade.

Existe também a desconfiança em relação à bondade. Muitas pessoas carregam uma visão tão negativa da vida que não conseguem acreditar que alguém possa agir com empatia sem que haja interesses que ainda não se revelaram. Nesse caso, a saída é atacar ou desmerecer para reduzir o que se sente internamente. Assim, quem não acredita na existência da bondade prefere invalidá-la — às vezes até destruí-la — a ter que rever sua própria visão de mundo.

A coroa da autenticidade

A coroa de espinhos existiu, mas nesse sentido é uma metáfora clara: o bem sempre corre o risco de ser mal interpretado, desmerecido ou atacado. Não porque haja falha em quem o pratica, porque em determinadas medidas elas sempre haverão, mas porque o movimento de alguns nessa direção incomoda a limitação de outros. Esse incômodo nasce justamente da dificuldade em lidar com a diferença entre o “eu ideal” e o “eu real”. Quanto maior essa distância, maior a tendência de atacar quem parece estar mais próximo do ideal que desejávamos ser.

Por isso, o caminho mais sábio não é gastar energia tentando convencer quem prefere não enxergar, mas sim seguir em frente, firme no que se é. A dor dos espinhos é real, você a sentirá com certeza, mas também é a prova de que a sua essência incomoda justamente porque é verdadeira. E, no fim, é melhor carregar a coroa da autenticidade, da dor, do que vestir a máscara confortável da falsidade.

Siga firme, a melhor cura vem daquele que já sofreu dores semelhantes.

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 03/09/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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