Viveria tudo novamente?

uma reflexão sobre a vida até aqui

O tempo voa!
É assim que “canta” o clichê. Principalmente quando há uma certa estabilidade, rotina, a percepção do tempo se perde, o dia, a semana, os anos se vão e, quando a gente se percebe, o tempo começa a terminar. Então recebo pessoas no consultório refletindo sobre o que viveram, algumas chateadas, queriam ter feito outras coisas, aproveitado mais. A música Epitáfio dos Titãs exemplifica muito bem o sentimento.

Tendo isso em mente, tendo essa percepção muito clara sobre o tempo, tendo praticamente ao lado pessoas iniciando a jornada e outras em direção ao término, não faz sentido uma avaliação constante sobre como estamos vivendo? Para onde o tempo tem “escorrido”? Tem realmente sido relevante, importante, válido e coerente com o que cada um de nós espera viver?

E se fosse tudo de novo?

Você viveria a vida que viveu até agora novamente? Essa pergunta surgiu numa conversa entre amigos, daquelas que começam leves, mas de repente pegam fundo e mexem com a gente. Se você tem amigos psicólogos, cuidado! A coisa vai longe nesses bate-papos, é enriquecedor!

Imagina só: se você tivesse a chance de nascer de novo, sabendo o que iria acontecer, ter revelado cada detalhe da sua trajetória, será que toparia viver essa mesma vida que já viveu até aqui? Só uma regra, nada será mudado até o dia de hoje! Viver tudo novamente, cada detalhe, e aí?

A primeira reação de muitos é pensar nas dores, nos erros, nos arrependimentos. Quantas vezes a gente se pegou desejando que as coisas tivessem sido diferentes? Talvez um emprego que não deu certo, um relacionamento que terminou mal, uma escolha feita na pressa ou um silêncio guardado quando as palavras teriam feito diferença. Quando olhamos por esse lado, a vida pode parecer pesada demais para querer repetir.

Mas também existe o outro lado. Quantas alegrias, conquistas e momentos simples marcaram nossa caminhada? Um abraço recebido na hora certa, uma amizade construída, uma vitória inesperada, um pôr do sol que ninguém registrou, mas ficou gravado na memória. Esses instantes são parte da mesma vida, inseparáveis das dores. Será que abriríamos mão deles apenas para evitar os tropeços?

Valeu a pena até aqui?

A verdade é que não existe vida sem dor. Não existe trajetória só de acertos. Cada erro, cada perda, cada frustração, por mais dura que tenha sido, também moldou quem nos tornamos hoje. Se apagássemos tudo que deu errado, provavelmente não seríamos quem somos. E será que estaríamos dispostos a trocar nossa própria identidade apenas para ter menos feridas?

No fim, talvez fosse importante nos perguntar: valeu a pena até aqui? Se a resposta for: “Não! De jeito nenhum, Deus me livre”, ainda há tempo de criar algo novo, e ter esse tipo de resposta é melhor do que continuar assim. Então mude! Viva algo que realmente lhe complete, liberte-se, torne-se você mesmo(a).

Agora, se a resposta for: “Sim, viveria tudo novamente!”, é provável que você esteja vivendo uma vida verdadeira e tenha entendido que ela é bela dessa forma, com suas nuances, com os opostos, com sua verdade, e que você esteja se tornando o que deseja. Na minha opinião, terminar uma vida não sendo você mesmo é muito triste.

Aí está o ponto final dessa reflexão: escolhas. No fundo, a vida nos dá apenas uma chance — a de viver o melhor que podemos com aquilo que temos hoje. Não existe roteiro certo, nem manual de instruções. Existe apenas a coragem de viver de verdade, com todos os riscos e recompensas que isso traz.

Saia das sombras e torne-se quem tu és!

Um abraço e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 19/08/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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