Tá bonitinho mãe?

sobre a necessidade de quebrar ciclos tóxicos

O ciclo da “perfeição

Há uma criança desenhando. Ela deve ter por volta dos seus 5 anos de idade. Nessa fase, a coordenação motora fina ainda não está completamente desenvolvida.

“Olha, mãe, um cavalo!”, diz ela, mostrando um pedaço de papel meio amassado, com traços que demonstram um corpo, um rabo, quatro palitos que deveriam ser as pernas e uma cabeça que parece uma azeitona. A mãe olha o desenho e responde: “Credo! Isso parece qualquer coisa menos um cavalo! Está horrível. É desse jeito que você quer ser pintora?”

As críticas são rotineiras. Nada que a criança faz é “bom” o suficiente. A mãe demonstra pouco amor e muita cobrança. Reflexo, talvez, de uma infância muito parecida (processo de repetição). Hoje adulta, a mãe é perfeccionista, pouco tolerante a falhas e, extremamente rígida com relação às suas convicções, que são, em boa medida, o modelo para uma vida correta e “feliz”.

A melhor aluna da classe

Em outro momento, um pouco mais adiante, com 10 anos de idade, sem elogios por perto e quase sempre desaprovada quando algo sai fora do “normal” da família, a criança é a melhor aluna da classe. Já está executando o processo de repetição! Não consegue demonstrar afeto em termos de compaixão. É muito boa tecnicamente, mas não cultiva muitos amigos. Português, matemática, inglês – a grade curricular tem uma prevalência de notas 10 e 9. Apenas uma nota 8, que lhe custou uma semana sem sair de casa para brincar.

Adolescência e relacionamentos

O tempo vai passando. Na adolescência, ela tem preferência por meninos passivos e submissos, pois com eles receberá “carinho” (não a machucam, são submissos). Ao mesmo tempo, conseguirá impor suas cobranças com relação ao “jeito certo”. Seja qual for a questão, ela sempre tem razão! Dominadora!

Com o tempo, percebe que essa relação não a satisfaz. Estar sempre certa, ao ponto de, às vezes, humilhar o outro, não lhe é novidade. Falta algo! Não há mais desafios. Todos parecem medíocres, burros, incapazes, lerdos! Sente que o mundo vai de mal a pior, que algumas pessoas “nem mereciam viver” ! Insatisfação!

Gravidez e maternidade

O coito acontece e, por consequência, em um momento de “falta de atenção”, a gravidez bate na porta. Ela culpa o marido: afinal, era só ter ejaculado fora. O corpo começa a se modificar. Engorda, sente-se desequilibrada. O ponto de gravidade muda. Tem vômitos, tudo a enjoa. Perde o controle do próprio corpo e então se desespera, se descabela!

A criança nasce: uma menina. Que surpresa! “Nada de chupeta! Assim não! Desse jeito não!. Você é um péssimo pai, e elas, as outras, péssimas mães. Elas não têm ideia do mal que estão fazendo aos seus filhos.” Os anos passam. O marido desiste. Ela o culpa por ser um “nada”, um zé ninguém! Imprestável!

A filha perfeita

Aos 3 anos, a filha já sabe o alfabeto, todas as cores e recita na língua inglesa. Nunca se suja, não se mistura com outras crianças. Tem todos os brinquedos que deseja e todo recurso necessário para que evolua tecnicamente. Ganha, então, uma caixa de lápis de 32 cores e vai para o seu quarto. E então que tudo recomeça…

Há uma criança desenhando. Ela deve ter por volta dos seus 5 anos de idade. Nessa fase, a coordenação motora fina ainda não está completamente desenvolvida…

Rodrigo Bazzan – 25/02/2024

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados