Ponto de vista míope!

reflexão sobre as inúmeras possibilidades de pontos de vista

Minha visão do mundo (literalmente)

Tenho 3,75 em um olho e 4,25 em outro de miopia. Acho que já comentei isso em algum texto. Uso lentes de contato há anos e me adaptei muito bem! Ser míope é muito engraçado. Adicione a isso eu também ter problemas com algumas cores, como a junção de vermelho e verde. Credo, é um verdadeiro inferno para eu conseguir ler nesse contraste. Descobri também que sou daltônico (discromatopsia) em um dia de trabalho. Fiquei teimando que era uma cor, e, na verdade, para todos os outros, era outra. Fizemos um teste online (https://www.pt.colorlitelens.com/teste-de-daltonismo.html#TEST) e então confirmei: ora, ora, não é que sou daltônico mesmo?

No fim das contas, se eu tiro minha lente de contato, não enxergo praticamente nada de longe, mas, de perto, por incrível que pareça, consigo ver os poros da pele da minha mão, por exemplo. O “oftalmo” disse que, por um lado, isso é bom: nunca terei problemas para ler o cardápio, por exemplo. Coisas da vida! Isso não me impacta nem um pouco, na verdade. Só fico curioso: como vocês, que não têm daltonismo, enxergam as coisas? Deve ser bem diferente, talvez mais colorido, quem sabe? Difícil dizer. Até mesmo para alguém que tenha a visão perfeita, ele nunca saberá realmente como o outro enxerga o mundo. E aqui estamos falando apenas sobre o sentido da visão, nada mais. Guarde isso!

8 bilhões de visões do mundo

Pensemos, então: se cada um, no caso apenas do sentido da visão aqui, enxerga o mundo de uma única maneira – lembre-se, mais de 8 bilhões de pessoas nessa “bola redonda” no meio do nada –, como podemos ter a presunção de que o nosso jeito de ver as coisas é o único jeito certo e possível? Difícil, né? Agora, imagine esses 8 bilhões de pessoas utilizando os 5 sentidos ao mesmo tempo (tato, visão, olfato, paladar e audição).

Uma conta simples, sem levar em consideração as combinações possíveis: 8 bilhões (8.000.000.000) * 5 (sentidos) = 40.000.000.000 de possibilidades de interpretações diferentes. 40 bilhões! Peguei na internet uma referência para entender esse número: se você tivesse 40 bilhões de folhas de papel A4, poderia empilhá-las e alcançar uma altura de 4.000 km – ou seja, 10 vezes a altura da Estação Espacial Internacional!

A subjetividade do sujeito

Os sentidos, que nos fornecem informação sobre o mundo exterior, são muito importantes para interpretar o mundo. E é justamente essa interpretação que cada um criará de uma forma muito específica. Na psicologia, chamamos isso de subjetividade do sujeito: cada ser único, com suas interpretações com relação à vida/sociedade em que está inserido. O que significa isso? Significa que a gente não é o “ban ban ban” sabichão de tudo, não! Haverá sempre um ponto de vista a ser levado em consideração. Vou contar uma outra história que me lembrei agora.

A tribo e a mulher que ordenhava vacas

Em uma tribo – não me lembro onde –, os homens foram procurar um psicólogo estrangeiro para que ele conversasse com uma das mulheres da tribo. Ela estava sendo tida como uma louca, com sérios problemas mentais, porque havia feito algo perturbador frente à cultura da tribo. Veja qual era o problema e tire de imediato agora sua conclusão precipitada: ela, constantemente, estava tirando leite das vacas. Vacas que eram de propriedade da tribo, mas a questão era: nessa tribo, só os homens podiam tirar o leite das vacas. Mulheres não deveriam se comportar daquela forma.

A mulher era tida como louca porque ordenhava as vacas – coisa que aqui do nosso lado é absolutamente comum! O que o psicólogo fez com essa questão, eu sinceramente não sei, mas não gostaria de estar na pele dele. Talvez um psicólogo da mesma cultura pudesse ajudar melhor. A vivência sempre deve ser levada em consideração. Ela é uma das bases mais importantes na formação da tal subjetividade do sujeito, senão a mais importante!

Pontos de vista e respeito

Dito isso, chegamos ao cerne da questão: pontos de vista! É importante que cada um tenha o seu, mas respeite o do outro. Afinal, nem mesmo quando concordamos com algo estamos de fato concordando plenamente com aquilo, pois eu não tenho a ideia completa de tal tema na cabeça da pessoa. Pode ser que, mais para a frente, você perceba que: “Nossa, concordei com ele(a) naquele momento, mas, vendo agora, parece que ele não pensa do mesmo jeito que eu.” Não mesmo! Isso é impossível! Receba! 😊

Há um limitador na cultura chamado linguagem. Se eu falo “cavalo”, você logo imagina um cavalo, com base na sua experiência de vida. Eu vou imaginar outro, e teremos mais 8 bilhões de possibilidades só de cavalo. Imagine na dinâmica do dia a dia, na construção de relacionamentos, como isso é complicado.

Qual a dica, então? Respeite! Respeite o outro com suas limitações, ante ao entendimento do seu pensamento, porque você também é limitado em tentar entender o que se passa no entendimento do outro com relação a determinado assunto.

Um ditado chinês para refletir

Para finalizar, um ditado chinês:

“Quando duas pessoas chegam com dois pães e, estando próximas, trocam os pães em sinal de gentileza, cada uma vai embora com apenas um pão. Mas, quando duas pessoas chegam com uma ideia cada uma e, com gentileza, compartilham dessas ideias, cada uma das pessoas vai agora com pelo menos duas ideias diferentes.”

Abraços e fiquem bem!

Rodrigo Bazzan – 20/02/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

Botões Alinhados