uma reflexão sobre as perdas, os lutos, e características que ficaram pelo caminho
Costumo dizer que sempre deixamos parte de nós em algum lugar. Isso faz parte da caminhada. Da mesma forma, também “roubamos” uma parte de quem nos relacionamos. Funciona assim mesmo! É uma característica marcante dos relacionamentos que geram afeto, sejam eles bons ou ruins — não importa! Você sempre sairá diferente de alguma forma.
Como aparentemente tudo na vida pode ser visto por um ângulo distinto, há perdas que são boas, outras nem tanto e algumas ainda terríveis — às vezes, difíceis de suportar.
Quando Perder é Algo Positivo
Perder um mau hábito, algo que nos atormenta e que não gostaríamos de possuir, me parece uma grande conquista. “Perder a hora” ao acordar em um domingo ensolarado, sem compromissos imediatos ou inadiáveis, depois de uma semana exaustiva, é um verdadeiro deleite!
Perder-se no tempo ao lado da pessoa amada, em momentos de troca e carinho há muito tempo esperados, é algo gratificante. Nesse caso, perder pode ser extremamente desejável.
As Perdas Que Deixam Marcas
Há outras perdas que nos são muito caras emocionalmente. Perder alguém que amamos sempre será difícil e demandará seu tempo de luto e “digestão” da situação.
Na psicologia, há um certo consenso de que perdas desse tipo levam, em média, de seis meses a um ano para serem processadas de forma saudável. Se o tempo se prolonga demais, é importante analisar o estado mental da pessoa. Pode ser que ela ainda não tenha conseguido sair do luto e um processo depressivo esteja se instalando. É sempre bom ficar atento.
As Perdas Invisíveis, Mas Cruciais
As perdas sobre as quais desejo refletir aqui são talvez menos perceptíveis, mas, a meu ver, extremamente importantes!
Às vezes, perdemos coisas que não deveríamos. Características que nos foram caras, que conseguimos com muito esforço e dedicação, e que, em algum momento, permitimos que perdessem o seu devido valor.
Trocamos, esquecemos ou colocamos no “quartinho dos fundos”, na bagunça, guardadas sim, mas quase esquecidas, se não forem revisadas.
Fazemos isso por conta das relações. Estamos sempre avaliando seus resultados e decidindo o que importa ou não. Eis aqui o grande tropeço!
Não deveríamos negociar tais coisas.
O Que Não Deveria Ser Perdido?
Quais coisas não deveríamos abrir mão? Justamente aquelas que nos definem, aquelas das quais nos orgulhávamos e que, sem medo, mostrávamos ao mundo:
“Dá uma olhada aqui, não é demais?”
Ou, ainda, exibindo um estado de satisfação plena:
“Caraca! Como eu gosto de ser assim…”
Mas, então, por que abrimos mão disso?
É muito provável que nossa verdade vá embora, em um momento ou outro (espero que não para sempre), por conta dos valores que nos cercam, pelo medo de não ser aceito, pela necessidade de “vencer”, pelo desejo de conquista, pela inveja da vida alheia, por se achar menor… e por aí vai.
Agora, pense: se aquilo do qual me orgulhava tinha tudo a ver comigo, me trazia paz e fazia sentido na minha vida, não parece óbvio que não deveria ser colocado no quartinho dos fundos?
Se me custou tão caro conquistar, como é possível que, por conta de outras situações ou pessoas, eu jogue isso fora, como uma bituca de cigarro, sem valor?
Não Desvalorize o Que Te Define!
Sim, é possível perdermos o que nos define — e mais fácil do que parece!
Quando não temos algo, desejamos. Mas, após conquistar, ele se torna parte de nós. Fazemos isso o tempo todo com bens materiais:
“Ah, mas isso é normal, não tem tanto valor assim…”
Péssimo!
Não trate sua vida e seu caráter como se fossem algo que se compra na esquina!
Valorize-se!
Sua vida é única. Você é único. E tudo o que conquistou em termos de caráter e essência também é único.
Ninguém tem a sua gratidão, porque ela é sua.
Alguém ama como você ama? Não! porque ele é seu.
Ninguém tem a sua seriedade, seu comprometimento e sua honestidade, porque eles são exclusivos de um ser único — você.
Não deixe aquilo que te define e do qual você se orgulhava ir para o quartinho dos fundos. E, se já estiver lá, vá agora, revisite, tire o pó e traga de volta à existência!
Seja você. Completamente você.
Há coisas que precisam ser perdidas. Algumas se vão porque a vida é assim, meio aleatória e incontrolável. Mas as que te definem e te enchem de orgulho? Não abra mão! O que te define precisa estar vivo em você. Nunca o abandone, e não se perca de si mesmo.
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 02/04/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung