uma reflexao sobre relacionamentos toxicos
Essa é uma estória, é fictícia, mas, não rara no mundo atual.
Laura tinha 34 anos e um olhar cansado, desses que escondem histórias que ninguém conhece. Era bonita, mas era perceptível que não cuidava de si. Quando chegou, trazia nos ombros o peso de um relacionamento de oito anos. Preocupada, procurou ajuda por causa do parceiro, tinha medo de perdê-lo, contava que não conseguia cuidar bem dele, por mais que tentasse, era insuficiente, que fazia tudo errado e não conseguia lhe agradar como deveria, se achava uma “tonta”, “desajeitada” e “burra”.
Contou que o parceiro decidia tudo: o que ela podia vestir, com quem podia conversar, quando podia sair. Que ele era metódico, e gostava de tudo certinho no seu devido lugar, nada podia sair do controle, que “combinado” era “combinado”. Continuava com orgulho contando, exaltando as “qualidades” do parceiro ao ponto de chegar a dizer que se ela fosse homem, gostaria de ser como ele.
É que eu não faço nada direito, foi sempre assim
Sentia-se incapaz de tudo! Recebia as críticas diárias sem questionamento, era submissa, agradecia todas elas com um ar de “eu mereço isso mesmo”, “nossa como eu sou péssima nisso”, “graças á Deus que eu tenho essa pessoa ao meu lado”, “o que seria de mim sem ele?”, e pensamentos similares e autodepreciativos a esses.
“Ele nunca me bateu!”, contava com um sorriso no rosto, como quem houvesse encontrado uma pessoa que enfim, conseguia lhe suportar. Não havia gritos nem socos, mas havia silêncio, controle, manipulação. Para qualquer pessoa, “mais do que na cara” de que havia algo errado.
Em busca pelo que passou na infância, Laura tinha um passado que ninguém via ou percebia. Foi uma menina insegura, criada num ambiente onde era pouco ouvida e muito corrigida. Cresceu acreditando que não era suficiente, que precisava merecer amor, agradar, ceder. Isso a fez vulnerável a qualquer pessoa que lhe oferecesse um “afeto condicionado”. Quando conheceu o parceiro atual, ele parecia protetor, “Ele cuida de mim!” Repetia várias vezes com lágrimas nos olhos.
Veio buscar ajuda para si, mas não entendia que o problema era ele! Ela já não sonhava, não ria, não escolhia mais nada. Apenas obedecia. Achava que era normal, que era assim mesmo. Afinal, quem mais iria amá-la daquele jeito “tão paciente”? Mas a paciência era fachada. O relacionamento tóxico já lhe tinha quase matado.
Como identificar esse tipo de armadilha
Quantas Lauras temos por ai? Também temos Robertos, Cristinas, Antônios e Marias. A toxidade não está fundamentada no sexo do parceiro mas em como ele funciona. Os relacionamentos desse tipo não começam violentos, mas com elogios exagerados, uma atenção que parece filme, fazem o outro acreditar que encontrou algo mágico, que está vivendo um conto de fadas, mas depois de um tempo, pouco a pouco, viram controle: “onde você estava, por que demorou, com quem falou. Faz você duvidar das suas escolhas, do seu valor, da sua liberdade. E ele(a) vira a referência do certo!
Você começa a se sentir mal por coisas pequenas. Pede desculpa o tempo todo. Evita conflitos para manter a “paz”. E, principalmente, passa a viver em função dele(a), deixando de lado seus gostos, seus amigos, sua vida. Isso não é amor. É prisão, um lugar onde não se pode ficar, um lugar de morte certa!
Como sair disso?
O primeiro passo é enxergar. Admitir que você está num lugar que te adoece. Não é fácil. Há culpa, medo, vergonha. Mas é possível. Conversar com alguém de confiança, procurar ajuda profissional, reconstruir sua autoestima.
Você não precisa de coragem pra sair correndo. Precisa de um passo por vez. Comece a lembrar quem você era antes. O que você gostava? O que fazia você sorrir? Volte a se ouvir, os questionamentos são essenciais para forçar um pensamento mais lógico nesse momento. Pessoas presas em relacionamentos tóxicos, são em sua maioria, muito emotivas. Então pare! Pense! Coloque no papel se necessário, os prós e os contras pelo que tem passado, e tenho certeza de que, se você estiver vivendo assim, perceberá na balança que o preço que está pagando está muito alto, em comparação ao que tem recebido.
Outro movimento importante, olhe ao redor, perceba outros relacionamentos, como eles são? Como os parceiros se tratam, compare, ambos estão felizes, são companheiros, ambos cuidam um do outro? E o seu como é? Qual parece ser mais saudável? Entende?
A rotina cega a gente, e sempre, vou repetir, sempre se faz necessário uma reflexão sobre como você está vivendo. Faça isso!
Características de um relacionamento saudável
Num relacionamento saudável, você é quem você é. Não precisa se esconder, se podar ou se justificar o tempo todo. Existe liberdade, apoio, admiração mútua. Você cresce junto. Não existe competição, controle ou chantagem. Existe parceria.
Amor bom não pesa. Amor bom dá paz. Amor bom não é prisão, é casa!
E Laura? Ela se livrou do babaca e seguiu em frente! Não viveram juntos o “felizes para sempre”, mas hoje, ninguém lhe diz mais como deve ser!
Abraços e fiquem bem!
Rodrigo Bazzan – 11/06/2025

Rodrigo Bazzan
Psicólogo Clínico
“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung