Estou doente?

uma reflexão sobre a saúde mental

Será que eu estou doente mentalmente falando? Quem de nós, em determinado momento ou situação, já não fez essa pergunta? Às vezes, sussurramos pra dentro da gente em dias mais nublados. Sim, pode parecer melancólico e até agradável, mas os dias nublados e frios abalam o psicológico de alguns de nós — uns mais, outros menos. Você pode até não gostar de sol, mas sem ele a tristeza bate bem forte na porta.

Essa pergunta sobre o incômodo estado atual pode carregar um peso enorme. Quando o corpo adoece, a gente até se acostuma a reconhecer os sinais característicos: febre, dor, cansaço. Mas… e quando quem adoece é aquilo que sentimos, pensamos ou vivemos por dentro? Isso não dá pra pegar, nem medir intensidade. Não tem um exame que diga: “Meu Deus do céu, corre arrumar isso, seu exame de felicidade está baixo demais!” Seria ótimo se existisse — assim, as pessoas parariam de dizer que a dor do outro é apenas “frescura”.

Doença mental não é frescura

Doença mental não é loucura, descontrole ou fraqueza de espírito, embora por muito tempo tenha sido vista assim. E até hoje, temos uma parcela considerável de pessoas que ainda entendem dessa forma: “Isso é falta de Deus!”, “Nossa, como você é mole!”, “Está querendo chamar a atenção!”. A coisa melhorou muito, mas ainda temos, não raramente, esse tipo de pensamento.

Hoje, com mais escuta e mais estudo, a gente conseguiu entender minimamente que a saúde mental é como uma balança: ela exige movimento, equilíbrio, manutenção. E quando algo dentro de nós começa a pesar demais, começamos a entender melhor a sinalização com base nos sintomas de que algo não está muito bem. Ansiedade constante, tristeza que não vai embora, irritações que se repetem, falta de sentido… são como alarmes que nosso mundo interno dispara dizendo: “ei, vamos dar uma olhada aqui? Tem algo aqui que precisa ser revisto.”

Sentir-se mal de vez em quando faz parte da vida. Ninguém está feliz o tempo todo. O alerta é sempre com base nos excessos: é quando o desconforto começa a ocupar demais por muito tempo e a interferir nos relacionamentos, no sono, no apetite, no trabalho, na vontade de estar com os outros — e, às vezes, até de estar consigo mesmo se torna um problema. Aí sim, é hora de buscar ajuda.

Conhece-te a ti mesmo

E sabe qual é um dos caminhos mais potentes para se proteger e manter a saúde mental em dia? Conhecer-se. Não aquele conhecer superficial, mas o verdadeiro: encarar suas sombras, aquela parte que a gente foge como o diabo foge da cruz. É aceitar seus defeitos, suas histórias, entender o que te move e o que te trava. A frase antiga, “conhece-te a ti mesmo”, é um dos melhores remédios preventivos que temos. Porque, quanto mais nos compreendemos, mais podemos nos acolher. E quanto mais nos acolhemos, menos nos perdemos.

Nesse processo de autoconhecimento é que a gente começa a se transformar em algo mais sólido e menos vulnerável às intempéries da vida. Ou seja, quanto mais você se conhece, mais verdade tem sobre si mesmo. E a importância em relação ao que as outras pessoas pensam sobre você, em certa medida, deixa de ser tão impactante. Você aceita ou rejeita coisas com base no quanto conhece de si mesmo.

Como se proteger

A proteção da saúde mental não vem com uma receita pronta, mas alguns ingredientes ajudam: criar rotinas de cuidado, cultivar vínculos saudáveis, respeitar seus limites, ter espaços de fala, e não ter vergonha de pedir ajuda profissional quando for preciso. Psicoterapia, por exemplo, é um desses lugares onde o “estou doente?” vira “estou me escutando!”.

Então, da próxima vez que se perguntar “estou doente?”, tente também se perguntar: “o que estou sentindo tem feito sentido para mim? Tenho me ouvido ou me silenciado?” Às vezes, a resposta não virá de imediato, mas só o ato de perguntar já é o começo da procura por uma mudança, da procura por algo melhor do que o estado atual.

Um abraço, e fiquem bem.

Rodrigo Bazzan – 03/06/2025

Rodrigo Bazzan

Psicólogo Clínico

“Onde o amor reina, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” Carl Jung

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